O VÔO DA FÊNIX: A FORÇA AÉREA VERMELHA DURANTE A BATALHA DE STALINGRADO.

Escrito por Michael A. Balis com dados fornecidos por Vladimir.

 

INTRODUÇÃO

A Força Aérea Vermelha, como o lendário pássaro do antigo Egito, ergueu-se da morte para a Batalha de Stalingrado. Depois das terríveis derrotas de 1941, a Alemanha presumiu erroneamente que os guardiães do ar da Rússia não desempenhariam um importante papel na campanha de 1942. A Força Aérea Soviética ajudou a desgastar a Luftwaffe e cortou os seus suprimentos às sitiadas tropas alemãs durante a Campanha de Stalingrado.

O DESASTRE

Manhã de 22 de junho de 1941. Caças alemães, bombardeiros de nível e bombardeiros de mergulho lançam-se sobre a Rússia ocidental e golpeiam os aeródromos soviéticos. Os pilotos soviéticos, apesar dos expurgos das imensas perdas fizeram planos e táticas para suas aeronaves, voaram bravamente em seus antiquados aparelhos alguns dos quais eram biplanos I-15 e I-53 bem como o monoplano I-16 projetado por N.N. Polikarpov contra a Luftwaffe experimentada em batalha. Eles perderam 1.200 aviões naquele primeiro dia. Durante os meses seguintes, as formações da Força Aérea Vermelha eram incapazes de deter os pilotos de caça alemães que clareavam os céus à vontade por sobre as colunas de tanques que riscavam através da Rússia.

RENASCIMENTO SOBRE CIDADE AGONIZANTE

Alguns dos fundamentos para a eventual vitória soviética no ar foram estabelecidos nas fábricas da Sibéria. Durante o verão de 1941, foram desmanteladas centenas de fábricas na Rússia ocidental e transportadas por trem além dos Montes Urais. Lá, as pessoas labutaram entre temperaturas abaixo de zero reconstruindo edifícios com troncos do duro pinheiro siberiano e remontando a pesada maquinaria dentro dos abrigos. Em 1942, mulheres operárias e adolescentes que trabalhavam freqüentemente sob condições árticas, muitas vezes sem telhados, produziram modernas aeronaves com materiais locais de alta qualidade. Muito do material, inclusive tubos de aço e instrumentos de painéis, foi feito localmente. Os duros troncos de pinheiro siberiano forneceram a madeira para a estrutura das aeronaves. Levou-se um mês para organizar a produção de pneus de borracha para trens de aterrissagem; assim, a produção destes aviões levou tempo. Eles apareceriam mais tarde durante a Batalha de Stalingrado.

Enquanto isso, em abril de 1942 o Coronel-General A.A. Novikov tomou o comando da força aérea e logo foi engolfado pela iminente ofensiva alemã. Naquele verão, os alemães lançaram a campanha contra Stalingrado e os campos petrolíferos do Cáucaso dando pouco tempo às forças soviéticas para absorverem as lições de 1941. Os pilotos alemães, alguns dos quais tinham três anos de experiência de combate, usavam suas flexíveis formações e sua habilidade na "briga de cães" para quebrar o ímpeto dos ataques aéreos soviéticos. No princípio Novikov pouco podia fazer, mas envia pilotos cujo treinamento tinha sido drasticamente abreviado para preencher as perdas de 1941. Homens que nunca " tinham cheirado pólvora " deram o melhor de si para aliviar a pressão sobre as tropas terrestres abaixo. O Tenente-General Vasili Chuikov que comandou os defensores de Stalingrado respeitou a bravura dos pilotos soviéticos demonstrada quando eles constantemente tentavam atacar as formações alemãs. Ele utilizou todos os minutos em que a Luftwaffe foi desviada da cidade para trazer reforços e materiais que fizeram cada nova ofensiva alemã muito custosa.

Apesar da enorme pressão que a Luftwaffe aplicou sobre todas as rotas para Stalingrado, Novikov introduziu com sucesso novos aviões e conceitos recentes, como o radar que dirigia a interceptação dos caças, o que permitiu aos pilotos soviéticos a interceptação mais rápida dos ataques alemães no ar e no solo. Ele enviou dez regimentos dos novos e aerodinâmicos Yaks-1 e 9 junto com os La-5 para o Oitavo Exército do Ar na região de Stalingrado que ajudou reduzir a velocidade das ofensivas alemãs na cidade. Enquanto os pilotos soviéticos mantiveram o controle dos céus em cima de Stalingrado, os constantes ataques soviéticos desgastaram a Luftwaffe que teve que guardar seus bombardeiros. Baterias de canhões anti-aéreos nas ilhas e na margem oriental do Volga também cobraram o seu pedágio em aviões bem como fizeram o bombardeio e o metralhamento sobre elas mais difícil.

O Comandante do 16° Exército Aéreo, General S.I.Rudenko e o comandante do 434º Regimento de Caça, Major I.I.Kleschev, organizaram equipes de bem treinados e experimentados pilotos que mostraram para os pilotos mais novos como combater. Passo a passo eles aumentaram a auto-confiança de seus camaradas e a fé em suas aeronaves. Isto logo começou a render dividendos quanto mais pilotos soviéticos combatiam seus inimigos com a mesma espécie de heroísmo dos seus aliados no solo. Um piloto imitou até mesmo as táticas de combate aproximado que os homens de Chuikov praticavam no centro da cidade de Stalingrado. B. Gomolko do 520º Regimento de Caça era tão agressivo que ele próprio se arremessava contra os alemães. Ele se lançou sobre dez bombardeiros alemães, abateu um, e depressa ficou sem munição. Isto não deteve o agressivo piloto que usou sua hélice para despedaçar parte de outro avião inimigo. Ambos os aviões caíram para a terra enquanto Gomolko e a tripulação alemã lançavam-se paraquedas ao solo. O russo aterrissou minutos antes dos alemães. Então ele falou para os alemães que eles eram seus prisioneiros mas um resistiu; assim, Gomolko atirou nele. O outro alemão não precisou de mais nada para se convencer.

ESTRANGULANDO O SEXTO EXÉRCITO

Enquanto o Exército Vermelho esmagava as débeis unidades romenas e húngaras no flanco norte e meridional do Sexto Exército, os pilotos soviéticos fizeram o máximo para cobrir os seus camaradas no solo. Os rompimentos de 19 e 20 de novembro foram tão completos e os russos e unidades de Eixo estavam tão próximos e completamente misturados, que na primeira semana da ofensiva foi penoso para os pilotos, que voavam a quase cem milhas por hora, distinguir amigo de inimigo. Incidentes com fogo amigo ocorreram mas não o bastante para afrouxar o laço dos dois braços do envolvimento. Uma vez que os duplos anéis de envolvimento foram apertados ao redor dos alemães, foi mais fácil para os oficiais do estado-maior russo prepararem mapas acurados da linha de frente e para os pilotos verem onde os alemães estavam e cooperarem com as suas tropas.

Enquanto o Exército Vermelho estreitava o seu aperto de anaconda sobre seus inimigos e reçachava a tentativa de resgate de von Manstein, os pilotos soviéticos prejudicavam o esforço de reabastecimento da Luftwaffe. O comandante local, General P.S. Stepanov criou anéis de canhões antiaéreos. Quando o Sexto Exército perdeu controle dos seus aeródromos ocidentais os transportes da Luftwaffe tiveram que cobrir maiores distâncias e tiveram que voar rotas mais previsíveis. Até mesmo sob céu nublado, as guarnições anti-aéreas disparavam granadas reguladas para explodirem à altitude provável em que as aeronaves alemãs voavam o que os levou também a cobrarem o seu pedágio em aviões.

Pilotos soviéticos interceptavam uma crescente quantidade de aviões alemães que levavam materiais aos soldados sitiados. O General Stepanov usou o radar e postos observação para guiar seus aviões aos seus alvos. Por exemplo, o General Yeremenko lembrou-se que a 11 de dezembro estava tão nublados, que três aviões da divisão de caça do Coronel I. Podgorniy foram alertados pelo ruído de aviões alemães. Vinte a trinta quilômetros do aeródromo de Pitmonik, dezesseis transportes cheios de suprimentos escoltados por quatro Messerchmitts desceram de sua cobertura de nuvens. Os soviéticos, em seu primeiro ataque, abateram cinco aviões e quatro outros foram forçados a aterrissarem em território russo. Somente um bombardeiro alemão escapou porque os caças soviéticos não tinham bastante combustível para perseguí-lo. Trinta e quatro pilotos se tornaram os prisioneiros. Um deles foi levado para o quartel-general do General Yeremenko. O General ofereceu liberdade ao piloto se ele levasse os termos russos de rendição ao Sexto Exército. Em resposta o alemão perguntou ao General que, se ele encontrase um piloto soviético que trouxesse tais termos para ele o que ele faria? Yeremenko replicou que ele julgaria tal piloto. O alemão disse então que se ele apresentasse tal documento para seu comandante não haveria nenhum julgamento, ele seria fuzilado e que era melhor ser um prisioneiro.

Os pilotos soviéticos também atacaram os aeródromos alemães. O capitão Bachtin e sete aeronaves Stormovik usaram a baixa cobertura de nuvem para se aproximar do aeródromo de Salsk sem serem vistos. No princípio, os artilheiros antiaéreos alemães estavam demasiados surpresos para abrirem fogo e os homens de Bachtin bombardearam e metralharam os aviões estacionados. Depois da segunda corrida de bombardeio melhorou fogo alemão mas os pilotos soviéticos atacaram implacavelmente quatro vezes mais até destruírem setenta e cinco aviões.

Embora as fontes alemãs e soviéticas estejam em conflito sobre as baixas, a Força Aérea Vermelha infligiu claramente grandes danos ao esforço de reabastecimento. Fontes soviéticas reivindicam 775 aviões de carga, 189 bombardeiros e 200 caças. Os alemães admitem 266 aviões destruídos. Até mesmo este último número representou uma perda significativa para os alemães. Todo avião e tripulação perdidos significava um maior esforço e desgaste para as tripulações remanecentes que lutavam para voar e aterrissar sob um clima horrível. Graças à ameaça imposta pela Força Aérea Vermelha e ao desgaste que ela causou, a Luftwaffe tinha somente 30% de operacionalidade na Rússia meridional e estava incapacitada para entregar as 500 toneladas de suprimentos que o Sexto Exército tanto requeria. Em um bom dia, chegavam 300 toneladas e isso foi muito raro. Assim os alemães comeram carne de cavalo e tinham tão pouca munição que se renderam mais rapidamente do que eles pretendiam e matariam menos soldados russos graças aos seus camaradas no ar.

CONCLUSÃO

Dos negros dias de 1941 ao inverno de 1942/3, a Força Aérea Soviética evoluiu em uma arma moderna capaz de apoiar as operações de solo. Graças ao duro trabalho dos operários das fábricas na Sibéria, aeronaves mais novas, mais rápidas e mais resistentes substituíram os velhos biplanos. Se agruparam aviões em unidades menores e mais maneáveis que estavam melhor capacitadas para a "briga de cães" (dogfight) com os caças alemães e reteve um mínimo de superioridade aérea quando muito isto foi preciso. Estes pilotos habilmente exploraram os problemas operacionais alemães durante o inverno de 1942 metralhando aeródromos e interceptando os aviões de suprimentos nos quais o sitiado Sexto Exército confiava. Este padrão continuou ao longo da guerra, em Kursk, à destruição Grupo de Exércitos Centr e até mesmo ao próprio "covil do lobo" em Berlim.

Translated and adapted into Portuguese by Alexandre Ferreira de Miranda

 

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